09 Outubro 2007
Três noites em uma
O Chofer de praça
Quando estamos atrasados os demais mortais não tem pressa. Sempre que entro em um ônibus e estou atrasada pode ter certeza que o motorista irá, dirigir mais devagar, parar para conversar com os amigos, enfim, andará no ritmo contrário ao da minha pressa. Devido a esta lei universal resolvi subverter a ordem pré-estabelecida, atrasada mais motorista lento, por um táxi. Entro no vermelhinho e peço para ir ao shopping Bourbon Country, dei um sorriso debochado para os coletivos que passavam e me acomodei no banco.
A certa altura da 3º perimetral o telefone toca, não o meu, o do motorista. Ele atende dirigindo, o que me deixa um pouco apreensiva, depois de algumas palavras desliga o móvel e sorri dizendo:
- Era minha mulher, me pediu um X, a tadinha está grávida.
Esta frase iniciou a história de uma vida que eu ouvi até chegar ao meu destino. A "tadinha" em questão era a terceira mulher do senhor V. Homem em torno dos 50 anos conheceu a esposa, mais jovem, em uma corrida na madruga de Porto Alegre, ela havia brigado com seu companheiro anterior, estava triste e com sua filha nos braços.
- Ela tava com uma cara triste, parecia que tinha chorado, larguei ela e a filha em um hotelzinho, mas logo depois ela me liga para pedir um X. Quando voltei para saber o que ela queria, ela estava de toalha, passando um óleo desses que fica perfumada, eu sou homem né, fiquei olhando.
Eu ouvia tudo atentamente, imaginando cada detalhe ao mesmo tempo em que me via em uma situação atípica, descobri que diferente do silêncio os taxistas falavam. Depois de saber que meu chofer era um apaixonado pela esposa também descobri que era um artista, declamou uma poesia e cantou duas de suas composições, de improviso, como ele mesmo disse. Escreveu as canções para suas duas cônjuges anteriores, uma delas já falecida, tem o poema e a música que conheci nesta corrida, sua primeira mulher mereceu apenas uma letra com despeito, pois o mandou embora de casa. E ao final da corrida ouvindo o acorde final da melodia, o senhor V pegou seu dinheiro agradeceu e me abençoou.
- Que Deus te proteja moça.
Pois é... espero que ele não esteja de folga.
Os sapatos de bico fino
Um show de jazz em Porto Alegre pode ser campo de estudo antropológico. Uma tribo freqüenta este ambiente, onde a músicas dos negros e marginais americanos toca com muita classe e sofisticação. Entrar neste seleto grupo requer habilidades sobrehumanas, todos os homens vestidos para aparentar modernidade, as mulheres arrumadas milimétricamente para parecer que estavam prontas em 10 minutos. Um artigo chamou a atenção desta locutora, o sapato de bico fino. Seja ele moderno ou mais tradicional não falta nos pés femininos que estavam no local. Pensei que seria certamente um estranho ritual ou mesmo a contra senha de uma sociedade secreta, afinal eu com minhas botinhas MD, bico arredondado, não poderia entrar para este clube. Como aspirante a repórter procurei de todas as maneiras me encaixar, mas o meu cabelo excessivamente encaracolado não parecia surtir o melhor efeito na espécie onde a escova progressiva era feita junto com o chá das cinco.
Me contento em observar o vai e vem dos espectadores do show esperando a minha vez. c
Como uma marinheira entrando pela primeira vez em uma Nau tento fingir experiência, mas todos notam que sou novata.
O homem, a pulserinha e o seu ego
"Sentar, bloquinho, caneta, espero não esquecer de nada". Enquanto o espírito organizador baixava em mim, algo acontecia ao meu lado, alheio a minha vontade alguém puxa conversa comigo, o primeiro resultado é o mau humor, preciso de concentração, meditação budista, enfim, é necessário coordenar meus movimentos, estou trabalhando.
Ignorando o meu jeito de iniciante, um rapaz, cabelo e barba ruiva, moderninho, puxa um papo que dure, sobre quanto custam as cadeiras onde estávamos sentados, noto que ele entrou com uma pulserinha escrito imprensa. Respondo o valor dos ingressos e começamos a conversar, ele fala que é jornalista, reclama um pouco dizendo que hoje não existem bons cronistas que falem de música, eu ouço e não consigo segurar a minha lingua.
- Acredito que não existem bons cronistas, porque os jornalistas que escrevem sobre música preferem assistir aos shows de graça e conhecer celebridades do que escrever bons textos.
Depois dessa minha frase, segue um minuto de silêncio, imaginei que ele se calaria e eu poderia em fim entrar em alfa e me preparar, aguçar os meus sentidos e observar. O ruivo não desiste e começa a falar novamente, sobre a pulseira, azul, a mesma que estou usando no pulso esquerdo e insisto em esconder. Quando digo que prefiro que as pessoas não vejam que tenho credencial, para azar meu ou simplesmente para gravar à ferro a impressão que vou levar de jornalistas especializados em música ele profere a seguinte frase:
- Eu gosto até do cheiro que esta pulseira tem, se existisse para vender em uma loja com certeza em compraria.
As luzes se apagam e o show começa.
** Quando voltei para casa, de coletivo, imaginei o que o taxista diria ao amigo da pulserinha de plástico.**
*** Extras ****
Começou ontem o ECOFAM, programa que busca levar a Ecologia para todos os tipos de ouvidos.Eu, Raissa Genro e Aline Scherer todas as segundas-feiras das 19 as 19h30 na freqüência digital da RadioFam.
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