28 Março 2008

Um olhar na cidade

Para amar alguém ou alguma coisa é preciso conhecer seus nuances, suas qualidades e defeitos. Há um tempo atrás numa conversa sobre a cidade de Porto Alegre descobri que várias pessoas não gostam do Centro da cidade. Inclusive, existe uma comunidade no Orkut exaltando o desprezo por esta parte da capital. Isso me deixou intrigada. Até ofendida.

Essa semana Porto Alegre comemorou 236 anos de vida. O que me deixou saudosista, sim, aquele, que sente falta do passado. Me fez lembrar do porquê fico intrigada, ofendida, quando alguém fala mal do Centro: acho que as pessoas não gostam por que não o conhecem direito. Motivo que explica a primeira frase. Eu gosto do jeito caótico, inundado, pobre, velho, ansioso e decadente do bairro.

Pode parecer estranho para muitos descontentes com esta parte da cidade, mas eu gosto do lugar onde, agora, estou escrevendo estas palavras. E este apreço se deve ao conhecimento que adquiri nas solas dos meus sapatos. O Centro é esquadrinhado pelo meu tênis All Star, desde sempre, daquela data perdida no tempo. As lembranças aqui são especiais e sempre em movimento, seja ele físico ou mental. A mais marcante na infância foi na Casa de Cultura Mario Quintana, na biblioteca infantil. Penso que uma menina de nove anos nunca deve descobrir que sua heroína, no caso a Pequena Sereia, não tem um final feliz. Ao contrário do desastre anterior, acredito que toda a garota de 17 anos deveria ouvir Miles Davis, em um belo vinil, na discoteca Natu Henn da mesma casa.

Longas caminhadas pela Orla do Guaíba onde milhares de pessoas saudavam o pôr-do-sol. O movimento constante de gente colorida, solidária e mochileira ao lado do fogo no acampamento da juventude no Fórum Social Mundial. Vontade de mudar o mundo. A mesma que adquiri quando pequena vendo a esquina democrática cheia, numa época em que Porto Alegre era vermelha. Cresci ouvindo os discursos de liberdade e igualdade, os gritos de protestos, as questões de ordem. Eu cresci e dobrei a esquerda na esquina mais politizada de Porto Alegre.

Outras partes me fascinam como a Praça da Matriz, cheia de protestos e lutas e do meu mais doce romance adolescente. A catedral me abrigou, algumas vezes, das chuvas repentinas e me deu a vista para os melhores vitrais, deitada nos bancos, tranqüilamente. Passo pelo Palácio Piratini e deixo Brizola gritando pela legalidade no porão, vou a escada que liga a Duque de Caxias a Fernando Machado e sento calmamente. Nessa descida antiga eu desenhei os meus planos mais ousados de futuro. Falei de sincronicidade e comi um sanduíche. Tudo com uma velha amiga. Exatamente como as coisas que dão certo devem ser.

No início eu disse que para amar é preciso conhecer. Mais do que isso, para amar é preciso aceitar todas as cores, os tons, os cheiros e gostos que os lugares e as pessoas tem para oferecer. E depois de todos esses anos de convivência e solas gastas, posso dizer que criei uma relação com esta parte da cidade. Aprendi nas ruas sujas da capital que é preciso olhar além da superfície, é preciso apreciar os detalhes. Nuances que podem passar desapercebidos pelo tresloucados passantes diários, mas que para aqueles abertos à aventura deveria ser um desafio. Costurar pelas ruas centrais uma história é desafiante, não só pelas calçadas irregulares, mas pelo prazer de descobrir a vida uma estrada cheia de curvas.

12 Fevereiro 2008

Eu sou mais a Amy, e daí?

Distante das previsões de morte e fim de carreira, Amy Winehouse, mostrou que está viva e pronta para arrasar. A noite de gala do Grammy 2008 reservou uma apresentação via satélite para a cantora, pois seu visto de entrada nos Estados Unidos foi negado. Direto de Londres, acompanhada de sua banca, ela ganhou cinco das seis indicações que recebeu. Na apresentação cantou dois de seus maiores sucesso You know I’m no good e Rehab. Radiante e com um grande sorriso, Amy parece recuperada dos últimos acontecimentos em sua vida pessoal.

As notícias sobre Amy giravam em torno do envolvimento com drogas e a prisão do marido. Amy aceitou se internar em uma clínica de reabilitação, depois da grande repercussão do vídeo onde a interprete, supostamente, estava fumando crack. O resultado da desintoxicação foi amplamente divulgado na impressa internacional que a segue constantemente nas ruas da capital inglesa.

A Inglesa de 24 anos, criada nos subúrbio de Southgate, em Londres, cresceu ouvindo jazz e aos 13 anos ganhou sua primeira guitarra. O seu estilo ácido e a sofisticação do jazz ganharam corpo quando lançou em 2003 o álbum Frank. Sua voz fez muito sucesso na Europa e participou de inúmeros festivais. Em 2006 é lançado Back to black, álbum produzido por Mark Ronson, ganhador do Grammy como melhor produtor não clássico. A sonoridade semelhante com os discos da gravadora Motown não é apenas coincidência, a cantora bebeu direto dessa fonte. Com essas influências conseguiu uma música com ar retrô além de letras que falam direto a sua geração.

Amy concorreu:

Gravação do Ano - "Rehab"

Música do Ano - "Rehab"

Artista Revelação

Melhor Performance Vocal Pop Feminina - "Rehab"

Melhor Vocais Pop num Álbum - Back to Black

09 Dezembro 2007

Projeto Matias – I a continuação

Leia antes Isadora - pseudo projeto I - seqüencia do conto
  • - Almoço de família é sagrado!

  • - Tudo bem!Já ouvi mãe! Será que pode parar de gritar um minuto?

Sempre odiou a maneira como sua mãe grita. Olha no relógio, 12 horas 24 minutos. Matias dá um meio sorriso ao lembrar que na noite passada os gritos de dona Célia eram ecos distantes, enquanto ele estava apenas se divertindo.

A casa de Luisa sempre foi seu lugar favorito, onde poderia beber e rir com os amigos da faculdade. Depois de uma semana vendo o movimento da boca dos professores, sem o som. Não prestava atenção nas aulas. Sua colega Luisa gostava de festas, sabia como organiza-las. Muita cerveja, amigos dispostos a se divertir. Era sempre a mesma coisa embriagante de sempre. Ontem não poderia ter sido diferente. Não lembra quando chegou em casa, apenas que acordou com a mãe aos berros para o almoço, que pelo menos na família Ramos, é a sagrado.

  • - Me passa a salada.

  • - Por onde você andou, garoto?

  • - Uma festa.

Tinha preferência pelas frases curtas em dias de ressaca. Sua mãe sempre queria saber mais. Lembrou que havia deixado Isadora na festa e ido embora com Marcela. “Ela deve ter ficado puta. Ou nem se lembra. Melhor ligar, depois”. Acabava sempre fazendo a mesma coisa. Relação de alto nível. Gostava da idéia de estar livre para fazer o que desejava. E ontem com certeza ele desejava, a Marcela. Uma morena com um belos peitos.

São 15 horas e 17 minutos. Resolve ligar para Evandro, marcar alguma coisa para o final de tarde.

  • - Alô? Evandro, meu irmão.

  • - Diz seu canalha como tá?

  • - De ressaca, mas tô ligando pra marcarmos uma ponte. O que tu vai fazer agora a tardinha?

  • - Pensei em ver pôr do sol. E me conta, pegou a Marcela?

  • - O que tu acha? Claro que peguei, não acredito, muito gostosa.

  • - Você é um grande filha da puta mesmo. E a Isa? Te viu com ela.

  • - Bah! Não sei. Falando em Isa vou ligar pra ela.

Desligou depressa. Discou o número. Chamou, chamou, chamou, chamou ...

  • - Alô!Isa, por que tu demora a atender esta merda de telefone?

  • - Tava comprando um cigarro de verdade, porra. Você me deixou estes mentolados de merda.

  • - Onde é que tú tá?

  • - Tu andando um pouco, tô enjoada depois de ontem.

  • - O que tu lembra de ontem hein?

  • - Não muito, festa da tua colega. Bebi um pouco, ouvimos música. Alguém me colocou num táxi. Só isso. Por que?

  • - Deixa pra lá. To passando na praça daqui uns 20 minutos. Vamos ver o sol ir embora.

Ela não recordava nada. Isso acontece sempre com a Isadora. Desde que se conheceram num buteco de bêbados, jogando sinuca. Ela ganhou a partida, Matias pagou as bebidas e quando acordaram no JK, Isa gritava enlouquecida perguntando que ele era. Hoje até parece engraçado, mas na época imaginou que havia transado com uma maluca. Agora já está acostumado, Isa bebe, Isa esquece. Precisa de um cigarro antes de sair.

Rouba o maço da mãe. Talvez porque dona Célia fume mentolados ele tenha se acostumado com aquele cheiro. Resolve ir andando até a praça, colocou os óculos escuros, não queria encara-la nos olhos. Está com a estranha sensação de culpa. Durante os seis meses que estão juntos nunca achou que errava quando traia Isa. Hoje passou por sua cabeça algo está errado. Isadora é uma mulher, uma garota esquisita, neste tempo em que se conhecem quase não sabe sobre a sua vida.

Sabe que mora sozinha, trabalha na recepção de uma funerária, tem mãe, fuma compulsivamente e gosta de ler romances baratos. Analisa que isso é pouco, mas logo pondera que os dois conversam muito pouco. Da um sorriso e pensa no termo cunhado por ele. Relação de alto nível. Um substituto para relação aberta. No inicio realmente era só sexo, com o tempo os dois saiam juntos, alguma conversa, mas no final era sexo. Muito bom por sinal. Matias não queria abrir mão de sua liberdade mesmo achando que tudo era muito divertido. Ela não lembrar das coisas aliviava sua consciência, que às vezes ficava pesada. Por cinco minutos.

Cenas dos próximos erros em breve...

17 Novembro 2007

Isadora - pseudo projeto 1

Ela acorda e vê o cinzeiro com o último cigarro da noite passada. A marca do batom ainda lá, no meio das cinzas, intacta. Não sabe que horas são nem o dia da semana, mas com certeza está de ressaca. Sua cabeça dói. Será que foi a vodca? Realmente não sabe, apenas precisa de um analgésico e um banho.

Levanta com dificuldade e vê pela luz que já é bem tarde. Anda pelo quarto antes de decidir entrar no banheiro. Tropeça na bota que deixou largada quando chegou em casa. Teve um pensamento ridículo – precisa comprar uma bota nova, aquela que estava no chão, tinha cinco anos, quem usa uma bota por cinco anos? Não sabe, também não quer pensar. Olhou-se no espelho do banheiro: maquilagem borrada, rosto casando, os cabelos curtos, loiros, com a raiz preta estão despenteados. Ela pensa – “nossa que estado deplorável Isa, você não tem jeito mesmo”. Tira a roupa, toma um banho. Como a água parece densa, quase como uma gosma que desce do chuveiro. Isadora ri pensando que realmente a noite tinha sido forte e o dia seria leve, isso lhe causava enjôo.

Preciso de um cigarro, pensa enquanto se enrola na toalha e anda pelo JK. A água escorre pelas pernas deixando poças onde quer que ela pare. Esse lugar está uma bagunça, pensa, enquanto acha uma carteira de cigarro mentolado no bolso da calça jogada na cadeira. Odeia cigarro mentolado. Mas não tem alternativa é o único que encontrou.

- Não sei como Matias fuma esta porra. Odeio esta merda de cigarro.

Nota mental: comprar cigarros decentes quando sair de casa.

Olha a geladeira. Água, cebolas, uma lata de massa de tomate. Vai para o armário. Pacote de bolacha que comprou semana passada... Vai isso mesmo. Café. Dizem que cura a ressaca, mas com ela não funciona mais. Toma por hábito. Talvez por vício.

Encontra o celular dentro do armário. São quatro e meia. Decide que vai sair. Tira a tolha e veste uma camiseta preta, jeans, jaqueta, delineador e rímel. Uniforme diário. Dinheiro amassado no bolso, celular. Claro, a bota. Aquela que usa há cinco anos.

Lembrou o dia, domingo. As ruas do centro são tão vazias que enganam os desavisados. Durante a semana tanto barulho: venda de cds, dvds, calcinhas, pessoas andando apressadas, velhos passeando. No domingo tudo isso desaparece, a cidade é um fantasma solitário. Passa em uma lanchonete, pede um cigarro, agora de verdade, compra um isqueiro novo. Segue a caminho da praça que fica em frente à igreja. Senta o mais alto que alcança nas estátuas de homens musculosos, fuma tranqüilamente e espera.

Matias ligou faz cinco minutos. Está passando, quer ver o pôr do sol. Às vezes se cansa das suas manias, mas aceita certas vontades dele para que a relação se mantenha em alto nível, como ele mesmo diz. “Fazemos um trato, eu não te amo, você não me ama. Transamos, somos felizes e tudo certo. Relação de alto nível. Somos adultos”. Esta foi à frase. O primeiro cigarro está acabando, Isadora põe a mão no bolso e sorri pensando que ainda tem uma carteira inteira a sua espera. Nestes dias depois de um porre, fumar é sua maneira de fugir do enjôo, da vontade de colocar seu fígado para fora. Odeia vomitar. Segura até o ultimo momento.

Continua na próxima semana ....

PS: Versão com algumas correções ....

09 Outubro 2007

Três noites em uma

O Chofer de praça

Quando estamos atrasados os demais mortais não tem pressa. Sempre que entro em um ônibus e estou atrasada pode ter certeza que o motorista irá, dirigir mais devagar, parar para conversar com os amigos, enfim, andará no ritmo contrário ao da minha pressa. Devido a esta lei universal resolvi subverter a ordem pré-estabelecida, atrasada mais motorista lento, por um táxi. Entro no vermelhinho e peço para ir ao shopping Bourbon Country, dei um sorriso debochado para os coletivos que passavam e me acomodei no banco.

A certa altura da 3º perimetral o telefone toca, não o meu, o do motorista. Ele atende dirigindo, o que me deixa um pouco apreensiva, depois de algumas palavras desliga o móvel e sorri dizendo:

- Era minha mulher, me pediu um X, a tadinha está grávida.

Esta frase iniciou a história de uma vida que eu ouvi até chegar ao meu destino. A "tadinha" em questão era a terceira mulher do senhor V. Homem em torno dos 50 anos conheceu a esposa, mais jovem, em uma corrida na madruga de Porto Alegre, ela havia brigado com seu companheiro anterior, estava triste e com sua filha nos braços.

- Ela tava com uma cara triste, parecia que tinha chorado, larguei ela e a filha em um hotelzinho, mas logo depois ela me liga para pedir um X. Quando voltei para saber o que ela queria, ela estava de toalha, passando um óleo desses que fica perfumada, eu sou homem né, fiquei olhando.

Eu ouvia tudo atentamente, imaginando cada detalhe ao mesmo tempo em que me via em uma situação atípica, descobri que diferente do silêncio os taxistas falavam. Depois de saber que meu chofer era um apaixonado pela esposa também descobri que era um artista, declamou uma poesia e cantou duas de suas composições, de improviso, como ele mesmo disse. Escreveu as canções para suas duas cônjuges anteriores, uma delas já falecida, tem o poema e a música que conheci nesta corrida, sua primeira mulher mereceu apenas uma letra com despeito, pois o mandou embora de casa. E ao final da corrida ouvindo o acorde final da melodia, o senhor V pegou seu dinheiro agradeceu e me abençoou.

- Que Deus te proteja moça.

Pois é... espero que ele não esteja de folga.

Os sapatos de bico fino

Um show de jazz em Porto Alegre pode ser campo de estudo antropológico. Uma tribo freqüenta este ambiente, onde a músicas dos negros e marginais americanos toca com muita classe e sofisticação. Entrar neste seleto grupo requer habilidades sobrehumanas, todos os homens vestidos para aparentar modernidade, as mulheres arrumadas milimétricamente para parecer que estavam prontas em 10 minutos. Um artigo chamou a atenção desta locutora, o sapato de bico fino. Seja ele moderno ou mais tradicional não falta nos pés femininos que estavam no local. Pensei que seria certamente um estranho ritual ou mesmo a contra senha de uma sociedade secreta, afinal eu com minhas botinhas MD, bico arredondado, não poderia entrar para este clube. Como aspirante a repórter procurei de todas as maneiras me encaixar, mas o meu cabelo excessivamente encaracolado não parecia surtir o melhor efeito na espécie onde a escova progressiva era feita junto com o chá das cinco.

Me contento em observar o vai e vem dos espectadores do show esperando a minha vez. c Como uma marinheira entrando pela primeira vez em uma Nau tento fingir experiência, mas todos notam que sou novata.

O homem, a pulserinha e o seu ego

"Sentar, bloquinho, caneta, espero não esquecer de nada". Enquanto o espírito organizador baixava em mim, algo acontecia ao meu lado, alheio a minha vontade alguém puxa conversa comigo, o primeiro resultado é o mau humor, preciso de concentração, meditação budista, enfim, é necessário coordenar meus movimentos, estou trabalhando.

Ignorando o meu jeito de iniciante, um rapaz, cabelo e barba ruiva, moderninho, puxa um papo que dure, sobre quanto custam as cadeiras onde estávamos sentados, noto que ele entrou com uma pulserinha escrito imprensa. Respondo o valor dos ingressos e começamos a conversar, ele fala que é jornalista, reclama um pouco dizendo que hoje não existem bons cronistas que falem de música, eu ouço e não consigo segurar a minha lingua.

- Acredito que não existem bons cronistas, porque os jornalistas que escrevem sobre música preferem assistir aos shows de graça e conhecer celebridades do que escrever bons textos.

Depois dessa minha frase, segue um minuto de silêncio, imaginei que ele se calaria e eu poderia em fim entrar em alfa e me preparar, aguçar os meus sentidos e observar. O ruivo não desiste e começa a falar novamente, sobre a pulseira, azul, a mesma que estou usando no pulso esquerdo e insisto em esconder. Quando digo que prefiro que as pessoas não vejam que tenho credencial, para azar meu ou simplesmente para gravar à ferro a impressão que vou levar de jornalistas especializados em música ele profere a seguinte frase:

- Eu gosto até do cheiro que esta pulseira tem, se existisse para vender em uma loja com certeza em compraria.

As luzes se apagam e o show começa.

** Quando voltei para casa, de coletivo, imaginei o que o taxista diria ao amigo da pulserinha de plástico.**

*** Extras ****

Começou ontem o ECOFAM, programa que busca levar a Ecologia para todos os tipos de ouvidos.Eu, Raissa Genro e Aline Scherer todas as segundas-feiras das 19 as 19h30 na freqüência digital da RadioFam.