23 Março 2007

A Nova Malandragem

A malandragem mudou de espécie. Nós, humanos, criamos o gênero que durante muito tempo foi sinônimo de brasileiro, mas o malandro clássico já não se encontra entre nós. Na Lapa ou na Cidade Baixa ele ia de bar em bar com sua classe e gingado, dando um ritmo diferente às noites boemias. Esperto, se equilibrava nos cordões das calçadas entre o mito e a sarjeta. Então veio Getulio e teve a “maravilhosa” idéia de valorizar os sambas dos trabalhadores e o pobre malandro escorreu bueiro a baixo. De Getulio para cá nós humanos, brasileiros, nos especializamos na tentativa de nos tornamos bons trabalhadores (não que tenha dado certo), e inocentes que somos acreditamos que os malandros moram apenas nos sambas de cartola. Constatei que estamos errados, numa manhã sonolenta vejo um exemplar da antiga malandragem só que em outra espécie, bem especifica, o cachorro vira lata. Ele vem, ou melhor, ela vem (por que era uma cadela) com suas patinhas quase sem tocar o chão num gingado divertido de quem nada quer a não ser estar no mundo, mais tarde, ao sol com os olhos semi cerrados, quase deitada, a cadelinha aproveita os momentos de calor de mais um dia. Imagino este exemplar canino como bom malandro, que anda sem compromisso pelas ruas apenas olhando a vida se movimentar, ouvindo ao longe o som de um samba e apressadamente indo conferir a diversão, a cerveja e o pó que levanta do barzinho de chão batido. Quando olhei aquela pequenina bicolor com suas orelhas erguidas e seu jeito esperto, alegre, gingando entre os estudantes, a visualizei como uma pequena malandra estudando o ambiente, sentido o clima. Depois de tanto observar a naturalidade dessa vira lata me perguntei se nós humanos não copiamos este ritmo canino, e cheguei à conclusão de que provavelmente na época de ouro da malandragem os melhores companheiros dos malandrados eram os vira latas. * Crônica em homenagem a cadelinha que vi passear pela famecos