17 Novembro 2007

Isadora - pseudo projeto 1

Ela acorda e vê o cinzeiro com o último cigarro da noite passada. A marca do batom ainda lá, no meio das cinzas, intacta. Não sabe que horas são nem o dia da semana, mas com certeza está de ressaca. Sua cabeça dói. Será que foi a vodca? Realmente não sabe, apenas precisa de um analgésico e um banho.

Levanta com dificuldade e vê pela luz que já é bem tarde. Anda pelo quarto antes de decidir entrar no banheiro. Tropeça na bota que deixou largada quando chegou em casa. Teve um pensamento ridículo – precisa comprar uma bota nova, aquela que estava no chão, tinha cinco anos, quem usa uma bota por cinco anos? Não sabe, também não quer pensar. Olhou-se no espelho do banheiro: maquilagem borrada, rosto casando, os cabelos curtos, loiros, com a raiz preta estão despenteados. Ela pensa – “nossa que estado deplorável Isa, você não tem jeito mesmo”. Tira a roupa, toma um banho. Como a água parece densa, quase como uma gosma que desce do chuveiro. Isadora ri pensando que realmente a noite tinha sido forte e o dia seria leve, isso lhe causava enjôo.

Preciso de um cigarro, pensa enquanto se enrola na toalha e anda pelo JK. A água escorre pelas pernas deixando poças onde quer que ela pare. Esse lugar está uma bagunça, pensa, enquanto acha uma carteira de cigarro mentolado no bolso da calça jogada na cadeira. Odeia cigarro mentolado. Mas não tem alternativa é o único que encontrou.

- Não sei como Matias fuma esta porra. Odeio esta merda de cigarro.

Nota mental: comprar cigarros decentes quando sair de casa.

Olha a geladeira. Água, cebolas, uma lata de massa de tomate. Vai para o armário. Pacote de bolacha que comprou semana passada... Vai isso mesmo. Café. Dizem que cura a ressaca, mas com ela não funciona mais. Toma por hábito. Talvez por vício.

Encontra o celular dentro do armário. São quatro e meia. Decide que vai sair. Tira a tolha e veste uma camiseta preta, jeans, jaqueta, delineador e rímel. Uniforme diário. Dinheiro amassado no bolso, celular. Claro, a bota. Aquela que usa há cinco anos.

Lembrou o dia, domingo. As ruas do centro são tão vazias que enganam os desavisados. Durante a semana tanto barulho: venda de cds, dvds, calcinhas, pessoas andando apressadas, velhos passeando. No domingo tudo isso desaparece, a cidade é um fantasma solitário. Passa em uma lanchonete, pede um cigarro, agora de verdade, compra um isqueiro novo. Segue a caminho da praça que fica em frente à igreja. Senta o mais alto que alcança nas estátuas de homens musculosos, fuma tranqüilamente e espera.

Matias ligou faz cinco minutos. Está passando, quer ver o pôr do sol. Às vezes se cansa das suas manias, mas aceita certas vontades dele para que a relação se mantenha em alto nível, como ele mesmo diz. “Fazemos um trato, eu não te amo, você não me ama. Transamos, somos felizes e tudo certo. Relação de alto nível. Somos adultos”. Esta foi à frase. O primeiro cigarro está acabando, Isadora põe a mão no bolso e sorri pensando que ainda tem uma carteira inteira a sua espera. Nestes dias depois de um porre, fumar é sua maneira de fugir do enjôo, da vontade de colocar seu fígado para fora. Odeia vomitar. Segura até o ultimo momento.

Continua na próxima semana ....

PS: Versão com algumas correções ....